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De ‘Superfuzz Bigmuff’ a ‘Plastic Eternity’: Mudhoney e a força do grunge em São Paulo

De ‘Superfuzz Bigmuff’ a ‘Plastic Eternity’: Mudhoney e a força do grunge em São Paulo

22 de março de 2025


Crédito das fotos: Flávio Santiago/OnStage

Os bons ventos que trouxeram o outono para a nossa caótica São Paulo também trouxeram o Mudhoney para o aconchegante Cine Joia, a casa de todos os ritmos, localizada no bairro da Liberdade, na zona central da capital.

Longe de ser escaldante e inflamada, a cidade reservou um clima fresco e agradável para receber os fãs do bom, velho e ainda vivo grunge — um gênero nascido, criado e lapidado em Seattle. Tudo estava perfeito para um dos shows mais esperados do calendário brasileiro até agora, com uma agenda sempre muito disputada e democrática. Os fãs quarentões, que formavam a grande maioria, estavam em êxtase para esse momento.

Antes do grande momento da noite, foi necessário conter a ansiedade enquanto o público assistia aos shows de abertura, que, convenhamos, foram escolhas acertadas e fundamentais para que a noite fosse realmente especial. E foi!

Às 20h30, o paraense Elder Effe subiu ao palco acompanhado de Bruno Cruz (guitarra e voz), Inesita (baixo e voz) e Augusto Oliveira (bateria e voz) para apresentar um repertório instigante, repleto de garage rock, letras autorais e distorções que convidavam os presentes a uma viagem sonora sem passagem de volta. Ou seja, muito alto, limpo e único!

O quarteto se apresentou por exatos 30 minutos, tempo suficiente para apresentar a novíssima ‘Monstro’, as pesadas ‘Na Pressão’ e ‘Ego’, conquistando a atenção do público, ainda pequeno, que se concentrava basicamente na frente do palco. Foi claramente uma estratégia para ‘beijar os pés’ da banda Mudhoney mais tarde. E não estavam errados! Um dos momentos mais especiais da noite ocorreu durante a participação de João Lemos (Molho Negro), que subiu ao palco para uma canja.

Enquanto o público ia chegando em maior número, o palco era montado para receber os santistas da banda Apnea, que tem entre seus membros Boka, o baterista da lendária e necessária banda Ratos de Porão. E foi então que, às 21h25, após pequenos problemas técnicos, o Apnea apertou os cintos para incendiar o palco com seu stoner/grunge/metal/rock cheio de camadas e influências, incluindo a de Mudhoney.

Tocando como quarteto, Marcus Vinicius (ex-Safari Hamburgers e ex-Bayside Kings) no vocal e guitarra, Gabriel Imakawa (Jerseys) no baixo, Nando Zambeli (ex-Garage Fuzz) na guitarra e Mauricio Boka (Ratos de Porão) na bateria, trouxeram um repertório visceral, com destaques para “Paper Cup”, “Undertow”, “Death Race” e “In Search of Peace”. E, assim como o show do Elder Effe, prenderam a atenção e conquistaram o coração do público, que já era um pouco maior naquele momento, até o fim da apresentação, às 22h00.

Até aqui, o que se viu foram duas bandas altamente potentes e com muita personalidade, escaladas para dar peso ao lineup da noite e não apenas para “distrair” o público enquanto o prato principal não era servido. Juntas, Elder Effe e Apnea mostraram ter calibre para serem atrações de respeito em qualquer noite roqueira que tomasse conta da cidade.

Após o Apnea “limpar” o palco, os roadies começaram a preparar tudo para receber a melhor parte do cardápio – ou, se preferirem, a sobremesa da noite, aquela que faz todos lamberem os pratos como grand finale. Sim, estou me referindo ao Mudhoney, e vocês sabem!

Sob os olhares atentos de Gabriel Thomaz (Autoramas), Evan Dando (The Lemonheads), eu, todos os presentes e muitas outras carinhas conhecidas, às 22h35, Mark Arm (vocal e guitarra), Steve Turner (guitarra), Guy Maddison (baixo) e Dan Peters (bateria) subiram ao palco para potencializar a noite, que ficará eternamente viva na mente e nos corações dos fãs e entusiastas da banda e do movimento grunge. Mas antes de começar, com todos os integrantes já postados no palco, Mark lembrou que havia esquecido as folhas do setlist e correu de volta ao camarim para buscá-las. Foi um momento cômico!

Com todas as folhas dos setlists nos devidos lugares, a banda iniciou sua apresentação com nada mais, nada menos que “If I Think”, do espetacular EP/disco de estreia “Superfuzz Bigmuff”, de 1988. O que causou muita euforia no público, pois tínhamos ali, aos nossos ouvidos, um clássico absoluto, não só para os fãs da velha guarda, mas para todos.

O repertório passeou por toda a discografia da banda, com destaque um pouco maior para “Plastic Eternity”, último álbum da banda, lançado em 2023, que foi representado por seis faixas. A primeira delas, “Move Under”, fez o público levantar e cantar com todo o vigor, como se estivessem cantando com os pulmões.

“Get Into Yours” trouxe à cena o disco “Mudhoney”, de 1989, que também foi representado por mais duas canções: “Here Comes Sickness” e “You Got It”. Em todas as músicas citadas, havia uma leveza no ar, com todos felizes, cantando e dançando com as mãos para o alto.

Do álbum “Digital Garbage”, que traz uma reflexão punk descolada sobre o comportamento humano na internet, tivemos quatro faixas: “21st Century Pharisees”, “Oh Yeah”, “Paranoid Core” e a primeira delas, “Nerve Attack”. Em todas, a “sujeira sonora” foi bem acolhida e celebrada.

“Into The Drink” trouxe o ruído saboroso daquele que podemos chamar de o álbum mais garage rock, com pigmentos de metal punk, “Every Good Boy Deserves Fudge”, segundo lançamento da vasta discografia da banda, lançado em 1991. “Good Enough” e “Let It Slide” foram as outras faixas escolhidas para representar mais esse clássico.

Ao soar os primeiros acordes de “Judgement, Rage, Retribution and Thyme”, que, juntamente com “F.D.K. (Fearless Doctor Killers)”, reviveu o clima de 1991 e do disco “My Brother the Cow”, ano de seu lançamento, a banda também reverenciou algumas das influências que moldaram seu som.

“The Lucky Ones”, álbum maduro e lapidado de 2008, teve “I’m Now” e “Next Time” tocadas em sequência. Essa escolha, muito acertada a meu ver, convidou o público a vivenciar aquele insight sem quebras de clima. Foi como se estivéssemos no show dos Stooges no ápice da sua existência nos anos 70. Lindo demais!

O menos badalado “Tomorrow Hit Today” também foi celebrado com os fãs. Foi a partir de “Beneath The Valley of The Underdog” e “Real Low Vibe” que o quinto álbum da banda foi servido para o deleite dos fãs mais passionais.

“Suck You Dry”, representante do icônico “Piece of Cake”, terceiro trabalho da banda lançado em 1992, trouxe um clima de celebração por estarmos vivos e podendo curtir esse momento nostálgico e, claro, por celebrar a trajetória da banda que ajudou a pavimentar um gênero, um estilo de vida chamado grunge. Se pudéssemos, estaríamos todos dançando e cantando “Suck You Dry” até agora.

“Vanishing Point”, lançado na década passada, também teve sua importância, e “Chardonnay” foi a escolhida para representá-lo. Já a parte final do show, antes do bis, trouxe a distorcida “One Bad Actor”, do EP “Morning in America”.

O retorno para o bis trouxe “Beneath The Valley of The Underdog” e dois hinos absolutos do gênero: “Here Comes Sickness” e “In ‘n’ Out of Grace”, que ganhou uma versão estendida cheia de ruídos, pausas, distorções e improvisos. Tudo perfeito, do jeito que foi a noite, e do jeito que tinha que ser!

Em uma noite marcada pela celebração da carreira de uma das bandas mais icônicas do grunge, a performance foi um verdadeiro passeio pela história do rock, repleto de energia e nostalgia. Entre clássicos atemporais e faixas mais recentes, a banda conseguiu equilibrar sua evolução musical com a força crua de seu som original, mantendo o público em êxtase do começo ao fim. Ao final, ficou claro que, apesar das décadas que passaram, a essência do grupo permanece inalterada, capaz de proporcionar aos fãs uma experiência visceral e única, marcada pela distorção, pelo improviso e pela paixão imensurável que só o grunge pode oferecer.

Setlist Apnea:
1. Paper Cup
2. Undertow
3. Peacefully
4. Deepness
5. Death Race
6. Hope Springs Eternal
7. In Search of Peace

Setlist Mudhoney:
1.If I Think
2. Move Under
3. Get Into Yours
4. Nerve Attack
5. Into the Drink
6. Almost Everything
7. Good Enough
8. Judgement, Rage, Retribution and Thyme
9. Let It Slide
10. Sweet Young Thing (Ain’t Sweet No More)
11. Touch Me I’m Sick
12. Little Dogs
13. Real Low Vibe
14. You Got It
15. Suck You Dry
16. Souvenir of My Trip
17. Tom Herman’s Hermits
18. F.D.K. (Fearless Doctor Killers)
19. Oh Yeah
20. Next Time
21. I’m Now
22. Chardonnay
23. Paranoid Core
24. Human Stock Capital
25. 21st Century Pharisees
26. One Bad Actor

Encore:
27. Beneath the Valley of the Underdog
28. Here Comes Sickness
29. In ‘n’ Out of Grace

Galeria do show