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Tool faz sua estreia em solo brasileiro com show no Lolllapalooza

Tool faz sua estreia em solo brasileiro com show no Lolllapalooza

1 de abril de 2025


A banda californiana Tool, em atividade desde o início dos anos 1990, finalmente decidiu mostrar seu repertório ao vivo na América do Sul. O quarteto formado pelo vocalista Maynard James Keenan, o guitarrista Adam Jones, o baixista Justin Chancellor e o baterista Danny Carey possui no presente momento cinco álbuns lançados. Dado o tempo de carreira até então pode até parecer pequena a quantidade de lançamentos, mas isso não diminui o fato de que a influência do Tool para o mundo do heavy metal é ampla e notória, sendo uma referência para muitas bandas de metal alternativo, new metal e metal progressivo que viriam a surgir nas décadas seguintes ao redor do globo. Esta imensa influência também contribuiu significativamente para solidificar uma devota legião de fãs, como os sul americanos que estavam esperando por um concerto do quarteto de Los Angeles até então.

Para fazer seu debute no Brasil, assim como feito em outros países do continente sul-americano, uma apresentação em meio ao festival Lollapalooza foi o formato escolhido. Embora destoante de boa parte do lineup, o Tool tocou para uma multidão de convertidos que vieram ao evento basicamente para ver a banda. Com um setlist que passeou pelos cinco álbuns de estúdio, a banda ecoou seu som pesado e intricado pelo Autódromo de Interlagos no início da noite do terceiro e último dia de festival. A banda usou e abusou dos telões para expor as famosas projeções visuais obscuras e enigmáticas que complementam sua sonoridade ao vivo – identidade visual construída principalmente pelo trabalho de Adam Jones, que tem formação nesta área.

Seguindo o cronograma do evento, o quarteto subiu ao palco pouco antes das 20 horas, abrindo o show com “Fear Inoculum”, faixa que também abre seu (nem tão) mais recente álbum de mesmo título. Aos primeiros acordes já era possível observar a crescente vibração do público, que foi se intensificando ao longo dos 10 minutos que compõem a música. Dá para fazer um paralelo interessante aqui, pois foi com esta música que a banda encerrou um período de 13 anos sem lançar novas canções – e também com esta finalmente o Tool ao vivo no Brasil se tornou uma realidade. Ao fim da canção, Maynard gritou “Brazil” algumas vezes para aproveitar a empolgação dos presentes, num dos breves momentos de interação do vocalista com a platéia. É habitual de Maynard cantar mais ao fundo do palco de modo a deixar que o som e imagens projetadas ao longo do espetáculo falem por si só.

Na segunda música houve uma inesperada surpresa com Jéssica di Falchi – que recentemente deixou a banda Crypta – participando de “Jambi”, canção do álbum 10,000 Days; contracenando com Adam Jones, ela contribuiu com solos de guitarra. Depois o grupo seguiu com “Stinkfist”, faixa de abertura do álbum Ænima – de 1996 -, que inaugura a formação da banda que perdura até hoje, e que também é a música mais tocada ao vivo na história da banda. O surrealismo alien assumiu o controle da noite com “Rosetta Stoned”, mais uma de 10,000 Days, onde Maynard despeja a ríspida e rápida sequência de vozes que fazem a introdução do épico cheio de variações de compassos, que expressa claramente a complexidade musical que representa o som do Tool.

Voltando para o álbum Fear Inoculum a banda tocou “Pneuma”, música quem tem sido a mais aclamada deste lançamento. Com seu início sutil e cadenciado, a também longa canção vai canalizando energia por seus vários trechos mais calmos até explodir em seu trecho final nas diversas varridas de bateria de Danny Carey. O baterista por sua vez durante todo o show faz uma apresentação à parte com sua bateria iluminada, em contraste aos outros três músicos, mais discretos e escondidos no palco. A reação da plateia seguiu intensa ao longo dos mais de 11 minutos da música, com muita concentração no começo, palmas no meio para acompanhar a banda, e gritaria no final. O baixista Justin Chancellor até aproveitou o momento para pedir ainda mais agitação do público e sentir a energia dos brasileiros.

Haviam sido apenas cinco músicas até então, mas com três peças épicas de mais de 10 minutos já executadas os fãs já haviam se deleitado por mais de 40 minutos de show. Isso tudo sem nenhuma música de Lateralus, o principal álbum da banda, ter sido tocada ainda. E foi neste trecho que a banda soltou as músicas deste álbum que trouxe para o seu set, quatro delas, todas em sequência. Primeiro, “The Grudge”, faixa que abre o álbum e já exprime porque Lateralus é considerado um dos melhores álbuns de metal progressivo de todos os tempos, com suas diversas mudanças de estrutura e intensidade. O duo “Parabol”/”Parabola” foi executado em seguida, assim como se posicionam no álbum, com a densa Parabol, quase sussurrada por Maynard, caindo sobre a fúria avassalorada de Parabola. Aqui é recitado um dos versos mais icônicos da banda, que expressa sua filosofia sobre a condição humana: “This body, this body holding me, feeling eternal, all this pain is an illusion”. E para fechar o bloco de Lateralus a banda tocou “Schism”, uma das músicas mais famosas do Tool, com sua memorável introdução de contrabaixo em um compasso fora do comum e seu pedal duplo frenético no final.

O tempo de show costuma ser mais curto em festivais, e por conta disso já estávamos chegando quase no final por aqui. A banda tocou a mais acelerada e direta Ænema, onde Maynard voltou a fazer mais algumas saudações ao público, e finalizou o setlist com uma versão mais encurtada de Flood, fazendo um leve aceno aos fãs que acompanham a banda desde início, e também com isso garantindo a participação de todos os cinco álbuns lançados pela banda no setlist.

Tocando para um público que estava exatamente ali por este motivo e despreocupado com o que acontecia a mais no festival, o Tool fez uma apresentação de aproximadamente uma hora e meia, que apesar de ter várias músicas beirando os 10 minutos passou na velocidade de um raio. O show deixou os fãs satisfeitos, mas também deixou um desejo de “quero mais”. Quando isso pode acontecer novamente é uma grande incógnita, dado o histórico de turnês da banda, que por carregar equipamento pesado para materializar as projeções visuais de seus shows costuma tocar em arenas maiores. Se as impressões da América do Sul foram positivas para a banda, resta dar tempo ao tempo e aguardar por uma nova turnê de um possível próximo álbum da banda. Por parte dos fãs, foi um sonho realizado poder enfim ver o Tool ao vivo, mesmo sendo um show dentro de um festival.

 

Setlist

Fear Inoculum
Jambi
Stinkfist
Rosetta Stoned
Pneuma
The Grudge
Parabol
Parabola
Schism
Ænema
Flood